Double da Ultra dos Anjos

Double Ultra dos AnjosA Double da Ultra dos Anjos começou a se concretizar na verdade no fim da prova do ano passado quando sai vencedor, ao cruzar a linha de chegada recebi os parabéns do Alexandre que é o criador do Caminho dos Anjos e falei com ele que nesse ano voltaria para dobrar o percurso.

Nesse ano fiz todo um treinamento reforçado somente de resistência diariamente com muita areia fofa e subida de montanhas, porem a prova estava chegando e nada de conseguir o carro para apoio na prova, estava preocupado porque no ano passado fui o único a fazer de mochila nas costas, porem esse ano como iria dobrar, precisaria de todo um suporte de uma grande equipe de apoio e equipamentos de primeira para que eu pudesse realizar minha maior quilometragem até hoje que seria de 470 Km.

Primeira providencia foi ligar para a minha patrocinadora a Kailash pedindo todo equipamento próprio para correr em trilhas, suportar, frio, chuva, calor e lama no que fui prontamente atendido, mas ainda faltava conseguir um carro de apoio para poder montar minha equipe, falei com o Fernando que é o organizador da Ultra dos Anjos e ele me falou para ligar para o Alexandre que era o criador do Caminho dos Anjos que tinha se tornado meu fã depois da prova do ano passado, quando liguei e falei com o Alexandre, na mesma hora ele me falou ” pode vir que você tem um carro 4 por 4 com motorista e tanque cheio e ficaria hospedado no sitio dele.

Liguei para o Luis Tadeu e depois falei com a Monica Otero que se juntaram ao Marcelo que foi o motorista da equipe, tudo pronto, equipe, carro, hospedagem, agora seria só fazer o que eu amo, que é correr, viajei para Passa 4 no dia 3 de junho(domingo), na segunda fomos ao mercado compramos tudo e arrumamos todo carro de apoio, tudo pronto para a largada da primeira etapa do desafio(235 km), para ficar tudo mais difícil chovia muito tornando tudo muito mais difícil, muita lama, tinha lugares que não tinha nem como andar, quanto mais correr.

Dia 05 de junho de 2012 as 06:00Hs da manhã começa o desafio de 470 Km muita chuva, o Fernando e a Vera organizadores da Ultra dos Anjos e o Alexandre com sua esposa Madalena, o criador do Caminho dos Anjos deram a largada, na minha equipe de apoio estavam a Monica Otero, Luis Tadeu e o Marcelo Igidio com apoio total iniciamos nosso desafio, muitas subidas, quatro grandes Serras chegando a quase 2 mil pés, sendo a pior delas a Cachoeira dos Garcias onde passamos na madrugada pegando temperatura próxima a zero e nesse ponto o Luis Tadeu desceu do carro e fez paccer comigo já que depois da cachoeira não passava carro e estaria sozinho e sua ida ao meu lado foi muito importante nessa parte que é a mais difícil, passando por cidades famosas como São Lourenço e Caxambu, no fim quando chega no ultimo ponto de apoio e faltando somente 25 Km vem a ultima serra para maltratar onde sobe 13 Km direto, mas faltando 5 km já começamos a ver a luz da cidade de Passa 4 o que nos da um grande animo para fecharmos a primeira perna de 235 Km e nesses Km finais para dar gás alem do Tani da Kailash chegar com a Paty para incentivar, o Alexandre do Caminho dos Anjos colocou um tênis e correu ao meu lado todo os 5 Km finais e fizemos uma grande festa.

Eu não tinha o que comemorar, sabia que se não completasse os outros 235 Km, nada teria adiantado, que teria sido um fiasco e nem uma medalha receberia, só vinha em minha mente a provada neve, a maldita que foi a única que me venceu até hoje, eu precisava provar para eu mesmo que se não fosse o acidente ocorrido na Arrowhead em que rolei a ribanceira e me arrastei por 8 horas em busca de socorro, eu teria conseguido dobrar aquela ultra e sabia que se não dobrasse novamente uma Ultra perderia a confiança e a credibilidade, nada podia atrapalhar, só que estava com os 10 dedos com bolhas de sangue por baixo da unha, fora as bolhas na sola dos pés.

Tinha que recuperar rapidamente para os próximos 235 Km e só tinha horas para essa recuperação, para minha sorte a Carla Goulart que também é atleta da Kailash e é enfermeira já tinha chegado para prova e drenou as bolhas de sangue, porem não conseguia calçar o tênis para poder correr, os pés estavam muito inchados, não tive outra alternativa a não ser cortar a frente do tênis para os dedos ficarem livres e eu poder correr, fiz uma bandagem com pele artificial para tentar proteger o Maximo os dedos arrebentados, em quanto isso minha equipe de apoio estava no mercado fazendo compras para repor tudo necessário para a segunda perna de 235 Km.

Dia 08 de junho de 2012 as 08:00 hs começa oficialmente a Ultramaratona dos Anjos 2012, sabia que tinha que dosar, não podia me empolgar, todos atletas estavam inteiros e zerados, estavam começando a prova, não tinha que disputar nada com ninguém, minha disputa era contra o relógio e os Km para fechar os 470 Km e já estava cansado dos primeiros 235 Km e com os pés bem arrebentados, o pensamento era cada Km a frente era um a menos, cada ponto de apoio que passava era uma vitória e o gostoso era ver todos os outros atletas e suas equipes de apoio me dando força e torcendo por mim, para eu conseguir dobrar a prova.

Quando passei em Alagoinha estava fechando 300 Km e o pessoal da Ultrarunner Eventos me fez uma surpresa fazendo uma linha de chegada para mim nessa marca que já era algo marcante, porem faltavam ainda 170 km e aproveitei para almoçar, estava muito bem na prova, inteiro, bem melhor que esperava, no fim da tarde quase escurecendo cheguei em Aiuriroca, o ponto de apoio antes da serra da Cachoeira dos Garcias o ponto mais difícil da prova e como já tinha passado por lá a 3 dias atrás já sabia o que me esperava e para piorar a situação voltou a chover, Luis Tadeu já estava desgastado, pois já estava no apoio com a Monica e o Marcelo cuidando de mim por 350 Km, mas para minha sorte nessa cidade encontramos a equipe da Carla da Kailash e ela teria o paccer do Gustavo Abade da Branca Esportes (um ótimo treinador e amigo)para subir a cachoeira e ele falou que poderia dispensar o Tadeu que estava cansado que ele subiria comigo e a Carla nos dando apoio na cachoeira e ali começou uma grande parceria em equipes, já que nós dois somos da mesma equipe passamos a trabalhar em conjunto para a Carla vencer no feminino e eu chegar entre os primeiros no masculino.

Porém quando acabamos de descer a cachoeira e passamos na casa rosada mandei o Gustavo seguir com ela que eu teria que descansar um pouco, estava dormindo em pé, precisava de 15 minutos e de uma sopa quente e eles seguiram e minha equipe de apoio que me esperava do outro lado da cachoeira me deu todo um tratamento especial para me recuperar para os 100 Km finais, sabia que faltava pouco, que não podia me empolgar porque ja tinha todo um desgaste de 370 km enquanto os outro só tinham corrido 135 Km, não podia comparar meu desempenho com os deles, precisava muito conseguir fechar os 470 Km dentro do tempo limite de 60 horas, em Baependi dei uma reforçada na alimentação, era cedo e tinha que estar bem forte para encarar todo o dia e mais uma madrugada, dali sabia que só faltaria Caxambu, São Lourenço, o Pesqueiro e Passa 4 e que só tinha mais uma grande Serra no fim.

Não via a hora de chegar logo em Caxambu porque já sabia que de Caxambu para São Lourenço e de lá para Passa Quatro era a parte mais fácil da prova, muito poucas subidas e era a hora de aproveitar e apertar o ritmo, não via a hora de acabar logo, os pés estavam já dormentes, nem tinha coragem de trocar as meias, tinha medo de tirar e não conseguir colocar outra, por estar correndo com os dedos machucados, fiz toda descida da cachoeira correndo de lado para não espremer os dedos e isso me causou uma torção no pé esquerdo, cada vez doía mais, e no pé direito uma bolha na sola fazia eu pisar meio de lado, sem falar que os dedos já estavam dormentes.

Chegando em Caxambu eu pensei, menos uma e pedi a Monica Otero um Açaí, por ser forte e calórico alem de pastoso e de fácil absorção, minha boca já não aguentava mais de tantas porcarias, estava toda machucada e cheia de aftas e só estava descendo açai e sopa de saquinho. Chega uma parte da prova que ficamos mais exigentes na alimentação, já não dava mais para ficar mastigando e engolir, tinha que ser somente coisas pastosas.

No caminho de Caxambu para São Lourenço tive uma grata surpresa, minha equipe de apoio tinha ido a frente abastecer o carro e eu estava sozinho quando vem em minha direção duas bicicletas e quando olho era meus dois grandes amigos Marcelo e Jiuliano que moram em São Lourenço (O Marcelo é da Gaffa MKT –www.gaffamkt.com.br – que criou minha marca e cuida do meu site), quando ele chegou do meu lado falou “Márcio você está em terceiro e o segundo está logo ali na frente quebrado, eu não acreditei, falei que ele estava louco, que era impossível, que eu devia ser o oitavo ou décimo e ele falou que não, que veio fotografando todo mundo e perguntando, isso me deu uma força enorme e fomos em busca do segundo colocado, um grande amigo que tinha feito durante a prova e que muito antes lá na cachoeira tinha falado que iria abandonar a prova que estava com os pés arrebentados e eu dei um esporro e falei “não vai abandonar porcaria nenhuma que eu não vou deixar, vem comigo, vamos juntos”, ao ultrapassá-lo, parei e dei um grande abraço e falei para seguir e nunca desistir que o estaria esperando na linha de chegada.

Agora estou com adrenalina na veia, algo inimaginável estava acontecendo, como eu poderia imaginar que depois de ter corrido 235 Km em baixo de chuva e terminar com os pés cheios de bolhas, ter que cortar o tênis para poder calçar, largar com todo mundo na prova normal descansado e estar em segundo lugar geral? Isso é loucura, mas meu pé esquerdo cada vez doía mais, a torção estava piorando, faltava ainda uns 55 a 60 km tinha que fazer algo para poder suportar a dor e chegar, foi quando vi lá na frente novamente a equipe da Carla e ao alcança-los falei com todo apoio dela (Giseli, Mariano e o Gustavo), pessoal faz uma tala para imobilizar meu tornozelo para eu poder completar que a dor ta insuportável e temos ainda uma grande Serra pela frente, na mesma hora todos pararam e vieram em meu socorro, depois de imobilizarmos, juntamos nossas  forças por nossa equipe Kailash para que tanto eu como a Carla conseguíssemos nossos objetivos e as duas equipes de apoio foram fantasticas, e graças ao esforço de todos cheguei a São Lourenço e logo tomei outro açai de 500 ml para ficar bem forte, só faltavam mais 2 pontos para acabar e de São Lourenço até o pesqueiro é praticamente só plano e lá fomos nós sempre as duas equipes juntas que na verdade virou uma grande equipe (Monica, Tadeu, Marcelo, Giseli, Mariano e Gustavo) e todos unidos para que nós conseguíssemos dar o melhor de nós e vencer o desafio.

Quando saímos da trilha e apontamos no asfalto foi uma grande felicidade para mim, sabia que era mais 4 Km até o pesqueiro, mas minha preocupação agora era algum atleta se aproximar e tentar buscar o segundo lugar, não podia na reta final faltando somente 29 km perder a segunda colocação, vi um carro de apoio de outro atleta se aproximar e pedi a Giseli para ir em sentido contrario ver se tinha algum atleta próximo e tínhamos agendado uma parada para descanso no pesqueiro e uma alimentação reforçada e cancelei tudo, só tomei uma sopa no Pesqueiro e preferi não arriscar a perder tempo, parti logo para a Ultima Serra e a linha de chegada.

Os  apoios da duas equipes foram primordiais, tirando leite de pedra, incentivando e apoiando o tempo todo na reta final dos 25 Km, A Giseli e o Gustavo alternando no paccer e o carro buzinando, colocando musica, eram 13 Km de subida direto e depois só descida, quando vi a placa de 12 Km para Passa 4, respirei fundo e pensei comigo, já foram 458 Km e agora 12 Km não era nada, mas minha preocupação era alguém se aproximar e toda hora olhava para trás para  ver se via alguma luz de lanterna, faltando uns 4 Km já comecei a ver a luz da Cidade, uma grande motivação, tirar as ultimas forças da manga, o apoio todo vibrando e quando entramos na cidade, falamos para as equipes estacionarem o carro na linha de chegada e todos voltarem para cruzarmos todos juntos e saborearmos aquele momento.

Foi  difícil de acreditar, não que tivesse conseguido dobrar a Ultra mais dificil do Brasil, isso eu tinha certeza que conseguiria, mas fazer a volta mais rapido que a ida e ainda ficar em segundo lugar geral depois de já ter corrido 235 Km sozinho e ainda ter que correr os outros 235 km com o tenis cortado e com os dedos cheios de bolhas, nunca imaginei isso, foi um sonho e gostaria muito de agradecer meus patrocinadores Kailash e Caminho dos Anjos, as duas equipes de apoio (Marcelo, Monica Otero, Luis Tadeu, Giseli, Mariano e Gustavo), a atleta Carla Goulart que foi companheira e me ajudou muito e trabalhou em equipe para o grande resultado, ao Marcelo Lopes que cuidado meu site e que veio ao meu encontro de Bike e me deu a noticia que estava em terceiro e me fez correr muito mais e em cada pessoa que acreditou e torceu para que eu conseguisse realizar mais esse desafio.

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3 Comments

  1. Olá Márcio, conversei com você uma vez no Alto da Boa Vista, estava vendendo short. Tenho o seu cartão guardado como um troféu, pois em alguns minutos de papo, senti a energia com que você passa suas experiências vividas com a corrida. Parabéns por mais esse desafio.

  2. ” pega lavarada”
    agora e triplo na cabeça, tamo junto e misturado.
    esse desafio ja e seu.

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